Projeto? o que é? Como se faz?
A CULTURA DO PROJETO
Como
a atividade construtiva de elaborar e desenvolver projetos pode se tornar
uma metodologia?
A atividade
de fazer projetos é simbólica, intencional e natural do ser humano.
Por meio dela, o homem busca a solução de problemas e desenvolve um
processo de construção de conhecimento, que tem gerado tanto as artes
quanto as ciências naturais e sociais.
O termo projeto
surge numa forma regular no decorrer do século XV. Tanto nas ciências
exatas como nas ciências humanas, múltiplas atividades de pesquisa,
orientadas para a produção de conhecimento, são balizadas graças à criação
de projetos prévios.
A elaboração do projeto
constitui a etapa fundamental de toda pesquisa que pode, então, ser
conduzida graças a um conjunto de interrogações, quer sobre si mesma,
quer sobre o mundo à sua volta.
Como
diz uma aluna,
“Para mim projeto
é igual projeto de arquitetura que o cara faz uma planta pra
saber
como vai ficar no final só que a diferença é que a gente vai mudando”
MIR - aluna
O
termo projeto é bastante recente em nossa cultura. São associadas
a esse termo diferentes acepções: intenção (propósito, objetivo, o
problema a resolver); esquema (design); metodologia (planos, procedimentos,
estratégias, desenvolvimento). Assim, podem ser concebidas a
atividade intelectual de elaboração do projeto e as atividades múltiplas
de sua realização. (Boutinet 1990)
APRENDIZAGEM POR PROJETO É O MESMO QUE ENSINO POR PROJETO?
Quando
se fala, na educação presencial, em "ensino por projetos", pode-se estar
falando do plano da escola, do projeto da escola, de projetos dos professores.
Nesse tipo de ensino, quais são os critérios que os professores seguem
para escolher os temas, as questões que vão gerar projetos? Que
vantagens apresenta a escolha dessas questões? Por que elas são
necessárias? Em que contextos? Que indicadores temos para
medir seus níveis de necessidade? A quem elas satisfazem?
Ao currículo? Aos objetivos do planejamento escolar? A uma
tradição de ensino?
Na verdade, no ensino, tudo parte das decisões do professor, e a ele,
ao seu controle, deverá retornar. Como se o professor pudesse dispor
de um conhecimento único e verdadeiro para ser transmitido ao estudante
e só a ele coubesse decidir o que, como, e com que qualidade deverá
ser aprendido. Não se dá oportunidade ao aluno para qualquer escolha.
Não lhe cabe tomar decisões. Espera-se sua total submissão a regras
impostas pelo sistema.
Porém,
começamos a tomar consciência de nossos equívocos. Pesquisas, em psicologia
genética, sobre o desenvolvimento da inteligência e sobre o processo
de aprendizagem, evidenciam que pode haver ensino sem haver aprendizagem;
que aprendizagem latu sensu se confunde com desenvolvimento;
e desenvolvimento resulta em atividade operatória do sujeito, que constrói
conhecimento quando está em interação com o meio, com os outros sujeitos
e com os objetos de conhecimento de que ele deseje apropriar-se.
Quando
falamos em “aprendizagem por projetos” estamos necessariamente nos referindo
à formulação de questões pelo autor do projeto, pelo sujeito que vai
construir conhecimento. Partimos do princípio de que o aluno nunca é
uma tábula rasa, isto é, partimos do princípio de que ele já pensava
antes.
E é a partir de seu conhecimento prévio, que o aprendiz vai se movimentar,
interagir com o desconhecido, ou com novas situações, para se apropriar
do conhecimento específico - seja nas ciências, nas artes, na cultura
tradicional ou na cultura em transformação.
Um projeto para aprender vai ser gerado pelos conflitos, pelas perturbações
no sistema de significações, que constituem o conhecimento particular
do aprendiz. Como poderemos ter acesso a esses sistemas?
O próprio aluno não tem consciência dele! Por isso, a escolha
das variáveis que vão ser testadas na busca de solução de qualquer problema,
precisa ser sustentada por um levantamento de questões feitas pelo próprio
estudante.
Num projeto de aprendizagem, de quem são as dúvidas que vão gerar o
projeto? Quem está interessado em buscar respostas?
Deve ser o próprio estudante, enquanto está em atividade num determinado
contexto, em seu ambiente de vida, ou numa situação enriquecida por
desafios.
Mas a escola, ou o curso pode permitir ao aluno escolher o tema, a questão
que vai gerar o desenvolvimento de um projeto?
É fundamental que a questão a ser pesquisada parta da curiosidade, das
dúvidas, das indagações do aluno, ou dos alunos, e não imposta pelo
professor. Isto porque a motivação é intrínseca, é própria do
indivíduo.
Temos encontrado que esta inversão de papéis pode ser muito significativa.
Quando o aprendiz é desafiado a questionar, quando ele se perturba e
necessita pensar para expressar suas dúvidas, quando lhe é permitido
formular questões que tenham significação para ele, emergindo de sua
história de vida, de seus interesses, seus valores e condições pessoais,
passa a desenvolver a competência para formular e equacionar problemas.
Quem consegue formular com clareza um problema, a ser resolvido, começa
a aprender a definir as direções de sua atividade.
ENSINO X APRENDIZAGEM
| .
.. |
Ensino
por projetos
|
Aprendizagem
por projetos
|
| Quem
escolhe o tema? (Autoria) |
Professores,
coordenação pedagógica |
Alunos
e professores individual e, ao mesmo tempo, em cooperação |
| Qual
é o contexto? |
Arbitrado
por critérios externos e formais |
Realidade
da vida do aluno |
| A
quem satisfaz? |
Arbítrio
da seqüência de conteúdos do currículo |
Curiosidade,
desejo, vontade do aprendiz |
| Como
são tomadas as decisões? |
Hierárquicas
|
Heterárquicas |
| Como
são definidas as regras, direções e atividades? |
Impostas
pelo sistema, cumpre determinações sem optar |
Elaboradas
pelo grupo, consenso de alunos e professores |
| Qual
o paradigma? |
Transmissão
do conhecimento |
Construção
do conhecimento |
| Qual
é o papel do professor? |
Agente |
Problematizadorr/orientador
|
| Qual
é o papel do aluno? |
Receptivo |
Agente
|
COMO SE INICIA UM PROJETO PARA APRENDER?
Usamos
como estratégia levantar, preliminarmente com os alunos, suas certezas
provisórias e suas dúvidas temporárias. E por que temporárias?
Pesquisando, indagando, investigando, muitas dúvidas tornam-se certezas
e certezas transformam-se em dúvidas; ou, ainda, geram outras dúvidas
e certezas que, por sua vez, também são temporárias, provisórias.
Iniciam-se
então as negociações, as trocas que neste processo são constantes, pois
a cada idéia, a cada descoberta os caminhos de busca e as ações são
reorganizadas, replanejadas.
Há diferentes caminhos que podem levar à construção do projeto, a
partir das necessidades do aluno. Inventando e decidindo é que os
estudantes/autores vão ativar e sustentar sua motivação. Para
tanto, precisamos respeitar e orientar a sua autonomia para:
- Decidir critérios
de julgamento sobre relevância em relação a determinado contexto.
- Buscar/localizar/selecionar/recolher
informações.
- Definir/escolher/inventar
procedimentos para testar a relevância das informações escolhidas em
relação aos problemas e às questões formuladas.
- Organizar e comunicar
o conhecimento construído.
COM
QUE IDADE O ALUNO PODE COMEÇAR?
Desde
quando é possível, na escola, trabalhar com projetos? É possível desenvolver
aprendizagem por projeto com crianças da 1ª à 4ª série, por exemplo?
Vamos
pensar um pouco sobre como acontecem as melhores práticas na pré-escola...
O que ocorre quando se oferecem diferentes situações para os alunos
escolherem os materiais e as atividades que mais lhes interessem?
E, quando estão interessados, eles aprendem a se organizar e a produzir?
É possível afirmar que eles desenvolvem seus projetos quando fazem seus
desenhos? Armam suas brincadeiras? Praticam seus jogos?
Inventam suas histórias?
É procedente a dúvida “em que momento as crianças têm condições de formular
questões?”
Quem nunca observou a característica de perguntadora de qualquer criança,
logo que aprende a falar? Elas chegam a perturbar os adultos: “O que
é isto ? Como funciona?" (estão sempre tentando experimentar, mesmo
que corram riscos), "Por quê?" O senso comum refere-se à fase dos “por
quês?” das crianças, como tão divertida para os adultos quanto embaraçosa!
Quando iremos nos dar conta de que o processo natural de desenvolvimento
do ser humano é “atropelado” pela escola e pelas equivocadas práticas
de ensino?
Se o ser humano deixa de ser uma criança perguntadora, curiosa, inventiva,
confiante em sua capacidade de pensar, entusiasmado por explorações
e por descobertas, persistente nas suas buscas de soluções, é porque
nós, que o educamos, decidimos “domesticar” essa criança, em vez de
ajudá-la a aprender, a continuar aprendendo e descobrindo.
Muitos professores dizem “eu não sei fazer um projeto de pesquisa”.
E inúmeros docentes dos cursos de pós-graduação sentem a necessidade
de ministrar uma disciplina a que chamam de Introdução à Metodologia
da Pesquisa! Daí a inferência de que um projeto de pesquisa deve
ser algo muito complexo, muito sofisticado.
Concordo que há muitos níveis nesse processo de construção. Mas,
como ele tem início? Temos necessidade de pré-requisitos formais?
Ou existe um modo natural de construir conhecimento, acessível a uma
criança pequena?
Quando destacamos anteriormente que a competência do aluno para formular
e equacionar problemas se desenvolve quando ele se perturba e necessita
pensar para expressar suas dúvidas, quando lhe é permitido formular
questões que sejam significativas para ele, pois emergem de sua história
de vida, de seus interesses, seus valores e condições pessoais, não
estamos definindo graus de competência, mas um processo que precisa
ser orientado.
E
OS CURRÍCULOS? COMO FICAM?
Será
que a introdução da Informática nas escolas, com a metodologia de
projetos, vai exigir mudança nos currículos? Como a escola
pode implementar essa mudança?
Os currículos
de nossas escolas têm sido propostos para atender a massificação
do ensino. Não se planeja para cada aluno, mas para muitas
turmas de alunos numa hierarquia de séries, por idades. Toda
a organização do ensino é feita para os 30 ou 40 alunos de uma classe,
e esperamos deles uma única resposta certa.
Se a escola oferecer trabalho em projetos de aprendizagem, qual
será a diferença? Não será mais um ensino de massa.
O projeto é do aluno, ou de um grupo de aprendizes. Se os
projetos são dos alunos, então são projetos diversificados porque
40 alunos não pensam da mesma maneira, não têm os mesmos interesses,
e não têm as mesmas condições, nem as mesmas necessidades.
A grande diferença, na escola, é um currículo por projetos dos alunos!
Em nossas
experiências-piloto no Projeto EducaDi/CNPq, os alunos não precisavam
estudar os mesmos conteúdos ao mesmo tempo. Os projetos eram
diversificados, mas interdisciplinares. Havia temas que atravessavam
transversalmente as atividades de todos. Cada aluno explorava
melhor os conteúdos no seu tempo, segundo seu ritmo; e podia ser
atendido em suas necessidades, que apareceram com maior clareza.
Mas, ao mesmo tempo, se conectava com outros alunos e professores,
com quem tinha interesses e necessidades afins, em outros espaços/tempos
diferentes - de modo síncrono, ou assíncrono. Essas
trocas entre parceiros proporcionam uma constante atividade operatória
de construção e reflexão.
Mas como o professor pode gerenciar essa “interconectividade”
entre espaços e tempos diferentes, mantendo a identidade dos sujeitos
na interação coletiva presencial ou à distância?
Sem
a tecnologia é quase impossível. A interatividade proporcionada
pelos meios telemáticos acrescenta uma nova dimensão ao currículo:
a criança vai estar no mundo.
Quando
se pretende trazer a vida para dentro da sala de aula, há restrições
de tempo e de espaço, de concepções e de práticas tradicionais.
Na situação atual, a sala é vazia de objetos da natureza e da cultura,
e o ambiente é pobre de informações e de oportunidades para exploração
e práticas. Para que pode servir o computador? Para
aportar ambientes virtuais, para situações de simulação, pois se
não é possível trazer toda a vida para a escola, é possível enriquecer
o seu espaço com objetos digitais. O computador pode servir
para dar acesso ao que está distante e invisível. Quando se
formam redes de conexões novos espaços são criados.
COMO
FICA, ENTÃO, O PAPEL DO PROFESSOR?
Nossa
experiência mostra que os professores têm se surpreendido muito com
a quantidade de informação que os alunos trazem, mesmo sobre conteúdos
e tecnologias que não haviam sido tratados no currículo da escola! Observamos,
então, como as crianças optam por questões diferentes, originais e relevantes!
Estas questões geram projetos com oportunidades de muitas buscas e experimentações.
Quais são as novas funções que o professor precisa exercer neste novo
contexto?
Função de ativação da aprendizagem
Um professor,
tão aprendiz quanto seus alunos, não funciona apenas cognitivamente, por
isso, em um ambiente de aprendizagem construtivista, é preciso
ativar
mais do que o intelecto.
A
abordagem construtivista, sob uma perspectiva genética, propõe aprender
tanto sobre o universo físico, quanto sobre o universo social.
Mas é fundamental ativar a mente e a consciência
espiritual para aprender muito mais sobre seu mundo interior e subjetivo.
A função
de ativação implica:
·
Trabalhar consigo mesmo a percepção de seu próprio valor
e promover a auto-estima e a alegria de conviver e cooperar.
·
Desenvolver um clima de respeito e de auto-respeito, o
que significa:
- estimular a livre expressão de cada
um sobre sua forma diferente de apreender o mundo;
- promover a definição compartilhada
de parâmetros nas relações, e de regras para atendimento desses parâmetros,
que considerem a beleza da convivência com as diferenças;
- despertar a tomada de consciência
pela iniciativa de avaliar individualmente, e em grupos, seus próprios
atos e os resultados desses atos;
- buscar a pesquisa e a vivência de
valores de ordem superior, como qualidades inerentes a cada indivíduo.
Função de articulação
da prática
A função de articular exige grande disponibilidade, com facilidade de
relacionamento e flexibilidade na tomada de decisões. Por que
são necessárias essas características? Porque essa função exige
que o professor faça a costura entre os diversos segmentos (professores,
alunos, pais, funcionários). Para isso é importante que o professor
articulador tenha o apoio dos pares para conseguir exercer essa função!
No que isso se diferencia do papel do supervisar pedagógico, por exemplo?
O professor articulador irá trabalhar junto a um grupo específico do
qual ele mesmo faz parte como um dos professores que atua junto aos
alunos, vivendo o dia-a-dia da sala de aula do grupo, com suas dificuldades,
sucessos e insucessos... e que também é o seu!
Mas
o que mesmo significa desempenhar essa função?
·
Articular as formas de trabalho eleitas pelos alunos,
com seus objetivos, interesses e estilos de aprender.
·
Gerenciar a organização do ambiente de aprendizagem,
programando o uso dos recursos tecnológicos:
-
selecionando softwares, materiais de laboratórios, de biblioteca,
de artes, materiais disponíveis em servidores locais e na Web;
-
organizando planilhas de acordo com a solicitação de alunos e professores,
para uso compartilhado de tempos e espaços;
-
agenciando e divulgando amplamente períodos e temas para comunicação
em tempo real (síncrona), entrevistas, visitas, excursões presenciais
e encontros virtuais planejados pelos diferentes grupos.
·
Destacar as possíveis áreas de interesse e/ou necessidades
dos aprendizes explorando-as sob a forma de desafios e problemas estimulantes,
presencialmente ou via rede.
·
Subsidiar os outros professores do grupo quanto ao andamento
das diferentes frentes investigativas no contexto cotidiano dos alunos.
·
Coordenar a reflexão sobre a ação, a avaliação da tecnologia
em uso, o planejamento de novas ações.
·
Proporcionar feedback, buscando a integração entre
áreas e conteúdos de forma interdisciplinar.
· Promover
a organização dos materiais didáticos nos repositórios do servidor da
rede Telemática ou da rede local.
·
Auxiliar a
contatar os especialistas em diferentes campos do conhecimento.
Função de orientação dos projetos
O orientador de projetos deve escolher os pequenos
grupos que queira orientar; e sua escolha precisa ser recíproca, isto
é, ele também deve ser
escolhido pelos grupos para:
·
Orientar projetos de investigação estimulando e auxiliando
na viabilização de busca e organização de informações, face às indagações
do grupo de alunos.
·
Acompanhar as atividades dos alunos, orientando sua busca
com perguntas que estimulem seu pensamento e reflexão, e que também
provoquem:
-
perturbações na suas certezas e nova indagações;
-
necessidades de descrever o que estão fazendo;
-
para testar e avaliar suas hipóteses;
-
esforço para formular argumentos explicativos;
-
prazer em documentar em relatórios analíticos e críticos seus procedimentos
e produtos, seja em arquivos locais, seja em publicações na Internet.
·
Documentar com registros qualitativos e quantitativos
as constatações dos alunos sobre seu próprio aprendizado, promovendo
feedback individual e coletivo.
Função de especialista
·
Exerça ou não a função de ativar, articular ou orientar,
o professor sempre terá de exercer sua função de especialista.
Por especialista, num currículo por projetos de aprendizagem, entende-se
a função de coordenar os conhecimentos específicos de sua área de formação,
com as necessidades dos alunos de construir conhecimentos específicos.
Assim, diferentes especialistas podem associar-se para identificar e
relacionar aspectos, do problema investigado, que não estejam sendo
contemplados ou que possam ser ampliados e aprofundados.
·
No caso das séries iniciais, o professor pode ser um
especialista pedagogo, mas o articulador poderá solicitar a colaboração
de especialistas de outras áreas como ciências, matemática, Informática,
Robótica, teatro, jornalismo etc., que estejarn assessorando
um grupo de estudantes mais avançados. Nestes grupos, pode haver
necessidade de articular com um especialista pedagogo, para tratar de
problemas de letramento, por exemplo.
·
A visão de cada especialista num grupo de professores
pode enriquecer o ambiente de aprendizagem onde se desenvolvem os diferentes
projetos dos diferentes grupos. Cada especialista aporta sua valiosa
contribuição para que a tecnologia seja usada dentro dos códigos e da
metodologia específica de sua área de conhecimento. Entretanto,
este uso pode ser harmoniosamente coordenado no que corresponde aos
conteúdos selecionados e aos valores vivenciados para a solução dos
problemas propostos no projeto do grupo.
E
O ALUNO? COMO APRENDE?
Mas
como o aluno aprende? Como se pode garantir a aprendizagem de
conteúdos?
A busca de soluções para as questões que estão sempre surgindo num ambiente
enriquecido configura a atitude e a conduta de verdadeiros pesquisadores.
São levantadas as dúvidas daquele momento, mas quais são as certezas
que ficam?
Em primeiro lugar, tratam-se de certezas provisórias porque o processo
de construção é um processo continuado e ocorre numa situação de continuidade
alternada com a descontinuidade. Uma certeza permanece até que
um elemento novo apareça para ser assimilado.
Para que um novo conhecimento possa ser construído, ou para que o conhecimento
anterior seja melhorado, expandido, aprofundado, é preciso que um processo
de regulação comece a compensar as diferenças, ou as insuficiências
do sistema assimilador. Ora, se o sistema assimilador está perturbado
é porque a certeza "balançou". Houve desequilíbrio. O processo
de regulação se destina a restaurar o equilíbrio, mas não o anterior
Na verdade, trata-se sempre de novo equilíbrio, pois o conhecimento
melhora e aumenta! E, justamente é novo, porque é um equilíbrio
que resultou da assimilação de uma novidade e, portanto, da ampliação
do processo de assimilação do sujeito, que se torna mais competente
para assimilar outros novos objetos e resolver outros novos problemas.
Buscar a informação em si, não basta. É apenas parte do processo para
desenvolver um aspecto dos talentos necessários ao cidadão. Os
alunos precisam estabelecer relações entre as informações e gerar conhecimento.
Não há interesse em registrar se o aluno retém ou não uma informação,
aplicando um teste ou uma “prova” objetiva, por exemplo; porque isso
não mostra se ele desenvolveu um talento ou se construiu um conhecimento
que não possuía.
EQUILIBRAÇÃO MAJORANTE - “(...) um sistema não constitui jamais um
acabamento absoluto dos processos de
equilibração e novos objetivos derivam sempre de um equilíbrio atingido,
instável ou mesmo estável, permanecendo cada resultado, mesmo se for
mais ou menos durável pleno de novas aberturas (...)” (Piaget, 1976)
O que interessa são as operações que o aprendiz possa realizar com estas
informações, as coordenações, as inferências possíveis, os argumentos,
as demonstrações. Pois, para construir conhecimento, é preciso
reestruturar as significações anteriores, produzindo boas diferenciações
e integrando ao sistema as novas significações. Esta integração
é resultado da atividade de diferentes sistemas lógicos do sujeito,
que interagem entre si e com os objetos a assimilar ou com os problemas
a resolver. Finalmente, o conhecimento novo é produto de atividade
intencional, interatividade cognitiva, interação entre os parceiros
pensantes, trocas afetivas, investimento de interesses e valores.
A situação de projeto de aprendizagem pode favorecer especialmente a
aprendizagem de cooperação, com trocas recíprocas e respeito mútuo.
Isto quer dizer que a prioridade não é o conteúdo em si, formal e descontextualizado.
A proposta é aprender conteúdos, por meio de procedimentos que desenvolvam
a própria capacidade de continuar aprendendo, num processo construtivo
e simultâneo de questionar-se, encontrar certezas e reconstruí-las em
novas certezas. Isto quer dizer: formular problemas, encontrar
soluções que suportem a formulação de novos e mais complexos problemas.
Ao mesmo tempo, este processo compreende o desenvolvimento continuado
de novas competências em níveis mais avançados, seja do quadro conceitual
do sujeito, de seus sistemas lógicos, seja de seus sistemas de valores
e de suas condições de tomada de consciência.
Como será feita a avaliação do rendimento do aluno, se cada um faz um
projeto diferente? O importante é observar não o resultado, um
desempenho isolado, mas como o aluno está pensando, que recursos já
pode usar, que relações consegue estabelecer, que operações realiza
ou inventa.
O uso da Informática na avaliação do indivíduo ou do grupo por meio
de projetos partilhados permite a visualização e a análise do processo
e não só do resultado, ou seja, durante o desenvolvimento dos projetos,
trocas ficam registradas por meio de mensagens, de imagens, de textos.
É possível, tanto para o professor como para o próprio aluno, ver cada
etapa da produção, passo a passo, registrando assim o processo de construção.
PORTFÓLIO - Uma forma de organizar o material para ser avaliado
é valer-se de portfólios. No portfólio, podem
ficar registrados todos os trabalhos, contribuições, descobertas,
reflexões realizadas pelo aluno e pelo grupo. O registro em portfólio
auxilia na própria auto-avaliação, com a vantagem de ajudar o aluno
a desenvolver sua autocrítica, a ampliação da consciência do seu trabalho,
de suas dificuldades e das possibilidades de seu desenvolvimento.
COMO
ADMINISTRAR A MUDANÇA NA ESCOLA?
Como
fica a equipe administrativa? A direção? A orientação educacional?
E a supervisão pedagógica?
Na instituição escola, cada segmento da comunidade tem seu papel dentro
da dinâmica geral de funcionamento, a ação de um interfere nas ações
de outros. Se a direção acredita na mudança para nova metodologia,
vai apoiar os professores interessados, facilitando a organização da
grade horária, a flexibilização do currículo, participação em propostas
de formação continuada etc; se os alunos mostram como se interessam
por utilizar mais os computadores, o professor pode repensar sua forma
de dar aulas, percebendo que, assim os alunos podem aprender mais e
melhor. E se um grupo de professores consegue se organizar e solicitar
horários para reuniões de planejamento de um projeto partilhado e interdisciplinar,
a supervisão pedagógica não terá de repensar a organização dos decentes,
para permitir este tipo de trabalho... e assim por diante?
Que mudanças podem ocorrer, no novo contexto de um currículo por projetos
de aprendizagem, nas funções de direção, de orientação educacional,
de supervisão pedagógica? Que valores mudam?
Não é mais possível uma relação de submissão, de autoritarismo hierárquico,
ou de dependência! Em todas as instâncias os valores superiores
devem ser ativados, A comunicação e a interatividade podem ser facilitadas
com as novas tecnologias e, com elas, o debate de princípios e o planejamento
de consenso.
Especialmente a gestão, essa tarefa complexa e muitas vezes exaustiva,
pode ser apoiada pela tecnologia. Já existem bons softwares para
apoio à gestão escolar. Tanto os novos modos de organização de
registros, como os de acesso automático podem facilitar o atendimento
dos sujeitos dessa comunidade. O correio eletrônico e fóruns
de debate podem ser muito úteis tanto ao serviço de orientação, quanto
ao de supervisão pedagógica. As informações contextuais podem
ser registradas, acessadas e analisadas em grupos para fundamentar decisões
de planejamento e desenvolvimento de ações especificas.
Entretanto, em uma escola, nem todos querem ou concordam em trabalhar
por projetos de aprendizagem. Como fazer?
Os docentes, que estão trabalhando por projetos de aprendizagem, atentos
ao seus colegas resistentes na tradição, podem, aos poucos, sensibilizá-los,
assim como à equipe administrativa. Comunicar apenas as experiências
inovadoras não é suficiente. Será preciso convidá-los para acompanhar
e participar das avaliações, reafirmando a importância da parceria.
O processo é lento, mas é como uma teia que vai se formando conforme
os fios vão sendo tecidos e tramados.
A mudança é irreversível e implica assumir responsabilidades.
Para isso, é fundamental que a equipe gestora da instituição seja parceira,
se proponha a acompanhar o processo e avaliar os resultados. A
realização de ações conjuntas e coordenadas entre direção, orientação,
supervisão e docentes fortalece e enriquece a mudança, auxilia na sensibilização
da comunidade e da família.
A
estrutura e o funcionamento que tem suportado um ensino de massa não
servem certamente para suportar o ensino à distância. A Educação
à distância precisa ser implementada com novos currículos baseados em
projetos de aprendizagem, que estão sendo regulados por princípios construtivistas,
que propõem a auto-estima e o auto-respeito para alcançar a liberdade
de tomar decisões, a ter resistência nas situações de instabilidade.
As
experiências que vamos apresentar aqui, foram desenvolvidas, como já
foi dito, no Projeto EducaDi /CNPq, em1997/1998.
Neste
projeto, a proposta é estudar experimentalmente as possibilidades de
mudanças na escola pública de ensino básico. Com bolsas do CNPq,
organizamos equipes de estudantes de escolas técnicas e de terceiro
grau, cuja atividade principal é dar suporte ao trabalho dos professores
com seus alunos no computador. Uma formação presencial e à distância
também foi oferecida aos alunos e professores, dentro da concepção de
formação continuada, em serviço. As páginas Web das escolas participantes,
foram elaboradas pelos próprios aprendizes, assim como os serviços nos
servidores. Qualquer educador ou estudante pode conectar-se e
interagir livremente com quaisquer pessoas dessa nossa comunidade de
aprendizagem cooperativa à distância!
Fagundes, Léa da Cruz - Co-Autoras Luciane Sayuri Sato/ Débora
Laurino Maçada
“Aprendizes
do futuro: as inovações começaram!”
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