Os autores
referidos, relatam que pesquisadores italianos em seus trabalhos teóricos
e experimentais usam diferentes abordagens suportadas por diferentes
hipóteses sobre o papel que a tecnologia desempenha no processo
de aprendizagem em Matemática, ou mais geralmente no processo
de aprendizagem, onde a Matemática ocupa um importante lugar.
As pesquisas
desenvolvidas tratando do processo de integração das Novas
Tecnologias da Informação (nos diferentes níveis
de ensino) se desenvolvem de maneira não linear e não
homogênea com respeito as tecnologias utilizadas, os conceitos
matemáticos envolvidos e as estratégias de ensino (Boieri,
Chiappini e Fasano, 1996).
Podem ser observadas,
no entanto, a ênfase em alguns tendências gerais:
Noções
básicas da Ciência da Computação e atividades
de programação no currículo de Matemática
Este
primeiro uso da tecnologia da informação no currículo
de Matemática está relacionado com a introdução
de noções fundamentais da Ciência da Computação
em atividade de programação. Tal abordagem relaciona-se
com a possibilidade de trabalhar com importantes noções
como variáveis, linguagem formal e algoritmos, e que, freqüentemente
se apresentam com significados diferenciados na Computação
e na Matemática. Um segundo aspecto, relaciona-se com a inserção
de tópicos usualmente não desenvolvidos nos currículos
tradicionais de Matemática como cálculos por aproximações
e métodos algorítmicos para resolução de
equações. A introdução de noções
de computação nas atividade de programação
procura integrar Informática e Matemática. Como exemplos
deste tipo de proposta citamos Reggiani (1988) e Reggiani (1989), que
desenvolveram um projeto de três anos em escolas secundárias
usando BASIC e no qual são exploradas, por exemplo, noções
de linguagem de programação, capacidades e limitações
dos computadores, estrutura de dados, significado de variáveis
em Ciência da Computação e na Matemática,
conceito e construção de algoritmos numéricos.
Trabalhos envolvendo a linguagem LOGO, semelhantes a proposta de Reggiani
(1989), também são referidos freqüentemente na literatura
(Malara e Guidi, 1988), (Pellegrino, 1989), (Pellegrino e Garuti, 1989
e 1990), (Pellegrino e Iaderosa, 1990), (Pellegrino e Malara, 1991).
Destacam-se nestes trabalhos a ênfase em abordar o processo de
recursão nas atividades de programação, a organização
dos dados de um problema que permitirão a construção
de procedimentos de programação e considerações
sobre os processos mentais envolvidos nestas atividades.
Boieri, Chiappini e Fasano (1996) cita também os trabalhos
de Simonetti (1994) e Bondi (1994), que descrevem experiências
usando LOGO no qual são desenvolvidas atividades envolvendo Aritmética,
propriedades algébricas, descobertas sobre a Geometria Plana
e transformações em Geometria.
Uma
segunda abordagem nas pesquisa é a que considera o computador
como um auxiliar, uma ferramenta para o aprendizado de Matemática
Nesta
abordagem os alunos são auxiliados no seu aprendizado de Matemática
através do uso de softwares tais como planilhas eletrônicas,
manipuladores simbólicos ou ainda pacotes específicos
para determinados conteúdos curriculares. Na WWW (World Wide
Web) encontramos um sem números destes softwares, como o Skecthpad
(geometria), Gnuplot (gráficos), Proglin (programação
linear), Matgraph (gráficos), Derive (manipulador simbólico,
gráficos, etc.) Ace2000 (osciloscópio), Rurci (álgebra
e trigonometria), Eukeprop (geometria). A utilização de
um ou mais destes recursos representa uma maneira de introduzir Novas
Tecnologias da Informação no currículo escolar.
No trabalho de Arpinati (1990) e Arpinati e Barozzi (1992) com a assistência
de um professor e o pacote Mathematica alguns tópicos clássicos
de Matemática, como fatoração e primos, critérios
de divisibilidade, seqüências numéricas, número
?, são trabalhados utilizando computadores.
Boieri, Chiappini e Fasano (1996) citam também os trabalhos de
Dettori et al. (no prelo) e Malara et al. (1992), nos quais são
utilizadas planilhas eletrônicas no aprendizado de álgebra,
estudos sobre regularidades em seqüências numéricas,
proporcionalidade e estatística. Elia et al (1993), Galizia e
Malaguzzi (1992), Galizia e Mascarello (1993, 1994a ,1994b), Galizia
et al. (1993), Sargenti (1992) usam diferentes softwares (como o Derive)
como ferramenta no ensino e aprendizagem da Teoria da Integração,
Séries de Fourier e Transformadas de Fourier. O foco destes últimos
trabalhos reside na construção e experimentação
de um currículo que enfatiza a continuidade do processo de aprendizagem
entre o nível secundário técnico e o curso de Engenharia
e a relação com aplicações em eletrônica
e Teoria da Informação.
Uso de micromundos
para o desenvolvimento de habilidades matemáticas
Uma terceira
tendência nos trabalhos de pesquisa voltados para as relações
entre Novas Tecnologias e Matemática está baseada nos
sistemas micromundos.
A idéia básica sobre o uso de um sistema micromundo no
aprendizado de Matemática é a de encorajar o estudante
a explorar o ambiente que está acessível através
de alguma interface e que envolve um modelo de um domínio de
conhecimento matemático. Tal exploração dependerá
necessariamente do sistema e segundo Boieri, Chiappini e Fasano, (1996),
pode melhorar o desenvolvimento das estratégias utilizadas pelo
estudante na resolução de alguma tarefa e contribuir na
construção de significados envolvendo relações
entre objetos matemáticos e suas representações.
Também se insere nesta classificação trabalhos
realizados usando o ambiente LOGO (Papert, 1994). No Instituto de Matemática
da Uinversidade Federal do Rio Grande do Sul, a Professora Loiva C.
de Zeni desenvolve trabalhos de exploração do ambiente
LOGO.
Outro importante micromundo é o Cabri-géomètre,
estando hoje disponível aos alunos da Licenciatura em Matemática
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A principal atenção
dada para o uso do Cabri-géomètre está no ensino
de geometria. A professora Maria Alice Gravina do Instituto de Matemática
- UFRGS têm desenvolvido trabalhos utilizando este software.
O uso da tecnologia
na transmissão e difusão de conceitos Matemáticos
Um quarto
possível uso da tecnologia da informação no currículo
de Matemática está baseada no uso de ferramentas e técnicas
(filmes, videodiscos, hipertextos) para a comunicação
e difusão de conteúdos e conceitos matemáticos.
Um exemplo deste tipo de trabalho, que vem sendo desenvolvido sob a
orientação da Dra. Léa da Cruz Fagundes, é
o realizado pela doutoranda Maçada, aluna do Pós-Graduação
em Informática na Educação - UFRGS.
Boieri, Chiappini e Fasano (1996) relatam o trabalho de Emmer et al.
(1989), Emmer e Loreto, (1989) o qual está baseado na tecnologia
de vídeo e que faz uso de animações computadorizadas
e simulações. Nestes vídeos são exploradas
conexões entre Matemática, História e Arte Moderna.
Relacionado com este ponto desenvolve-se o trabalho Educação
à Distância em Ciência e Tecnologia coordenado pela
Dra. Léa Fagundes (LEC-IP-UFRGS). Este se propõe a aplicar
as Tecnologias da Informática em EAD (Educação
à Distância) para formação de professores,
aplicar a Internet à sala de aula para, em curto prazo,
atender em Educação à Distância o sistema
de ensino público, avaliar os impactos e as transformações
decorrentes da presença da INTERNET em escolas públicas
de comunidades dos estados de Ceará, Distrito Federal, São
Paulo e Rio Grande do Sul e desenvolver software para EAD, testar, avaliar
os resultados e validar os “produtos” .
Formação
de professores para a integração de Novas Tecnologias
da Informação
no currículo de Matemática
Face
às diferentes maneiras para desenvolver uma integração
entre o currículo de Matemática e a tecnologia da informação
descritos anteriormente a questão da formação dos
professores é essencial. Boieri, Chiappini e Fasano, (1996) citam
como um trabalho nesta linha o de Bottino e Furinghetti (1996) no qual
os autores analisam as concepções dos professores sobre
Informática e seu ensino em conexão com a Matemática.
Eles focalizam o papel do professor analisando as diferentes escolhas
tomadas pelos professores diante de reformas curriculares que contemplam
a introdução de Informática nos cursos secundários.
Os resultados deste trabalho apontam que tais escolhas dos professores
está intimamente relacionada com suas concepções
sobre Informática em relação ao ensino de Matemática.
No Laboratório de Estudos Cognitivos - UFRGS, têm sido
desenvolvidos trabalhos na formação de professores em
geral (Fagundes e Petry, 1991) desde sua criação em 1984.
Nesta linha de trabalho se insere o realizado pela Doutoranda Rosane
Nevado, também aluna do Pós-Graduação em
Informática na Educação - UFRGS.
Aprendizagem
Matemática, Novas Tecnologias e pessoas portadoras de
necessidades
especiais
Boieri,
Chiappini e Fasano, (1995) concluem sua análise das tendências
nas pesquisas sobre tecnologia e Matemática ressaltando a importância
da tecnologia da informação no ensino-aprendizagem de
Matemática para pessoas portadoras de necessidades especiais.
Nesta linha citam os trabalhos "The supermarket", "The line of numbers"
e "Indiana Jeans", programas desenvolvidos por Contardi et al., (1995a
e 1995b) para estudantes com deficiência mental e que, segundo
os autores, auxiliam na construção de competências
e habilidades (classificações, relações,
números e operações, deslocamentos no plano e sistemas
de coordenadas cartesianas) e para melhorar sua autonomia também
em Matemática.
Modelos
Matemáticos e Aplicações de Matemática
na
Sala
de Aula
Um modelo
matemático de uma situação problemática
real constitui uma representação matemática
de uma parte da realidade (uma dada situação concreta
- como a determinação da superfície corporal de
uma pessoa -, idéia, objeto ou fenômeno – a previsão
do tempo, por exemplo). Esta representação é realizada
através de objetos, relações e estruturas da matemática
(tais como tabelas, relações funcionais, gráficos,
figuras geométricas, etc.). No caos do modelo proposto pelos
fisiologistas para o cálculo da superfície
corporal, o modelo se apresenta na forma de uma relação
funcional entre as variáveis S e p.
Matos (1995), escreve:
“Com
um modelo procura-se descrever os elementos considerados como fundamentais
na situação, ignorando-se deliberadamente os elementos
tidos como secundários. No entanto, na medida em que um modelo
matemático tende a ser uma simplificação útil
daquilo que pretende descrever, ele simplifica alguns aspectos da
realidade de forma a clarificar ou a tornar mais salientes outros
aspectos. É típica dos bons modelos a tendência
para não haver demasiadas simplificações mas
sim para tornar salientes os aspectos fundamentais da situação.”
Usualmente
o processo de modelação é representado esquematicamente
na forma de um ciclo, que pode se repetir com o objetivo de melhor se
ajustar à situação que se pretende modelar. Variando
de autor para autor, optamos por trabalhar com o esquema proposto por
Kerr e Maki (1979), levando em consideração a atenção
dada para o cenário pedagógico em que se possam desenvolver
os processos de construção e manipulação
de modelos. Procurando tornar o trabalho de modelagem adequado para
a sala de aula de maneira que os alunos utilizem algumas das idéias
e dos instrumentais matemáticos, Kerr e Maki acrescentam um passo
intermediário entre o Modelo Real e o Modelo Matemático,
representado no esquema por Modelo para a Sala de Aula.
O esquema
poderia sugerir que os passos a serem dados na construção
de um modelo, se dão de forma rígida e sequencial. Matos
observa que
“o
processo de modelação é visto como um conjunto
de etapas evolutivas, que apenas idealmente se sucedem numa determinada
ordem. Nesse sentido, ele não deve ser assumido como um percurso
rígido, bem pelo contrario, uma ou mais etapas podem ser combinadas
ou mesmo omitidas em atividades a desenvolver em sala de aula.”
No caso
do esquema apresentado, o ciclo de modelagem consiste nos seguintes
passos (adaptados de Matos, 1995):
1.
Identificação de um problema do mundo real.
2.
O problema é muitas vezes modificado e simplificado com vistas
a ser descrito em termos razoavelmente precisos e sucintos. Essa descrição
do problema constitui o chamado modelo real. Trata-se de um modelo
tendo em vista que uma idealização, ou simplificação
foi feita, isto é, nem todos os aspectos da situação
real são incorporados na descrição.
3.
Com o objetivo de produzir um ambiente para a Aplicação
da Matemática na Sala de Aula, acrescenta-se uma outra etapa,
“que pode ser decisiva do ponto de vista pedagógico” (Matos,1995).
4.
O modelo real é ainda mais simplificado e apresentado num contexto
que seja interessante e compreensível para os alunos, tornando
viável a aplicação de alguns conceitos e idéias
matemáticos presentes na situação-problema. Chegamos
ao chamado Modelo para a Sala de Aula e a sua presença relaciona-se
com o fato do modelo matemáticos ser construído com
fins didáticos.
5.
Conversão de aspectos e conceitos do mundo real em símbolos
e representações matemáticas.
6.
Uso de instrumentos e técnicas matemáticas para se obter
conclusões baseadas na utilização do modelo construído.
7.
A validade de um modelo pode ser aferida através do confronto
das conclusões obtidas a partir do modelo com a realidade.
No entanto, durante todo processo de construção de um
modelo, testes podem ser feitos para ferir a validade ou não
do modelo proposto. Identificada alguma insuficiência relevante
no modelo, ou seja sua inadequação para fornecer informações
úteis acerca da realidade, o processo deve ser retomado.
Estamos
diante de Novas Tecnologias da Informação, diante de novos
espaços de construção do conhecimento. A realização
de esforços na utilização, estudo de novas metodologias
apropriadas para o trabalho nestes novos ambientes e avaliação
deste trabalho é essencial para, além de estreitar a defasagem
existente entre a educação escolar fundamental e o desenvolvimento
científico e tecnológico da sociedade atual, promover
a plena afirmação da cidadania de todos os possíveis
envolvidos neste processo: professores, alunos e todos aqueles que no
futuro poderão construir e usufruir dos seus resultados.
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